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Definir Alucinação como "percepção
sem objeto" (Ball), ou ainda, como preferem outros "sem o
estímulo sensorial respectivo" é incorreto, em qualquer
dos dois casos. No primeiro porque percepção sem objeto,
em verdade, não existe. Toda percepção é
sempre percepção de algo e implica forçosamente
direção para um objeto. Este vem a ser, em última
análise, o seu conteúdo perceptivo empírico que
apesar de falso ou irreal representa um dado imediato de consciência.
No segundo porque a ausência de estimulação sensorial,
ainda que pudesse ser realmente demonstrada, não caracteriza,
por si só o fenômeno alucinatório, em sua essencialidade
e nem sequer permite distinguí-la ao pseudo-alucinatório.
A rigor, a questão da existência ou não de um estímulo
sensorial não pode mais ser invocada, nem mesmo para discernir
da alucinação a imagem ilusória fruto da deformação
interna do objeto intuído por inadequada integração
significativa. O equívoco resulta aqui, por conseguinte, da não
concordância entre a intenção significativa e o
conteúdo empírico do percebido, onde a facilidade de sua
correção instantânea é automática
em condições normais.
Jaspers vem assinalando, com insistência, que as alucinações
verdadeiras devem revestir todos aqueles caracteres da imagem perceptiva
real, especialmente a vivência da corporeidade com a qual empresta
objetividade espacial à essa intuição mórbida
e lhe assegura passiva e imediata aceitação pelo juízo
de realidade.
A força de convencimento da imagem alucinatória é,
pois como se vê, irresistível, embora não constitua,
na verdade, elemento decisivo para distinguir as alucinações
das pseudo-alucinações. Estas últimas nem sempre
carecem, efetivamente, da necessária objetividade e corporeidade,
de onde provém, segundo Jaspers, a força de convencimento
das verdadeiras alucinações.
Se é certo que tais caracteres faltam nas pseudo-alucinações
que foram objetos das famosas autodescrições de Kandinsk
(imagens visuais, não dotadas de movimento, à maneira
de quadros que surgem e se sucedem, sem relação lógica
uns com os outros e apenas perceptíveis ao "olho interno")
e que serviram de base à conceituação de Jaspers;
o mesmo não acontece, por exemplo, com aquelas pseudo-alucinações
ditas hipnagógicas e hipnopômpicas, encontradas até
em pessoas normais, no momento em que passam da vigília ao sono
e vice-versa (chamamento de vozes fugazes, sons musicais e mesmo orquestras,
vultos que se aproximam do leito, que passam, de repente ou que se afastam,
etc), as quais costumam ser momentaneamente aceitas pelo juízo
de realidade.
Mas apurando o seu critério, acentua Jaspers que as verdadeiras
alucinações hão de transcorrer, além do
mais, perfeita claridade de consciência, o que as tornaria, então,
extremamente raras, quase a ponto de se poder dizer que não existem.
Pensa por sua vez, Carl Schneider que a essência do fenômeno
alucinatório não está na alteração
do ato perceptivo, pois de outro modo não se compreenderia que
os doentes percebessem o dado alucinatório, ao mesmo tempo que
os objetos do mundo real.
A observação é procedente e tende assim a deslocar
a patogênese do fenômeno alucinatório, da esfera
senso-perceptiva para o plano da execução psíquica.
Somente por efeito de mudança de execução é
que, então, se poderia entender a possibilidade de existência
de alucinações e pseudo-alucinações ao lado
de percepções e representações normais.
Essa mudança de execução é que determinaria,
a seu ver, parte do estímulo que deveria ou não ser intuída
no ato perceptivo anormal, bem como a modificação que
viria a sofrer o dado vivenciado nesta ou naquela direção
significativa.
Em suma, para Schneider, as falsas percepções não
podem ser interpretadas como distúrbios originariamente psicossensoriais,
e sim, como expressão de profundas alterações do
"eu", sensorialmente manifestadas.
Erwin Straus declara que as alucinações são "modificações
primárias da sensação" (compreendida esta,
não na acepção psicofisiológica do termo,
mas como elemento essencial de comunicação simpática
do "eu" com o mundo).
Não se trata, pois, de distúrbios isolados, sensoriais
ou perceptivos, mas de modos de ser-no-mundo, que abarcam a totalidade
das experiências vividas.
Assim, as alucinações e as pseudo-alucinações
são conceituadas com alterações da representação,
uma vez que nessas alterações não está em
jogo o processo da percepção.
Mira Y Lopes define alucinação como "imagem representativa
ou imagem fantástica que adquire os caracteres de sensorialidade
necessários para ser aceita pelo juízo de realidade como
proveniente de um objeto exterior" .
Baillarger estabelece uma diferença entre ilusão e alucinação.
A alucinação representa um fenômeno inteiramente
novo, que não faz parte da experiência do homem normal.
Consiste numa percepção na ausência de um agente
externo capaz de provocar a excitação do órgão
sensorial correspondente; só pode ser observada em graves alterações
das funções mentais. A imagem representativa ou fantástica
adquire todos os elementos que caracterizam a imagem perceptiva, faltando,
porém, o estímulo exterior, isto é, o objeto que
lhe daria origem. A ilusão advém de fragmentos de pensamentos,
de idéias internas, como quando se fala consigo mesmo. À
medida que se tenta obter dados mais precisos as informações
dos pacientes que têm ilusão tornam-se mais vagas.
Do mesmo modo, não se consegue precisar muitas vezes o campo
sensorial a que se referem essas vivências delirantes tomadas
com muita freqüência por alucinações.
Nas alucinações devem-se distinguir as seguintes qualidades:
- Nitidez sensorial;
- Projeção para o exterior;
- Intensidade;
- Impressão de realidade;
- Valor emocional.
As alucinações têm,
às vezes, a mais perfeita nitidez. Em outras ocasiões,
falta esta qualidade e então são captadas figuras nebulosas,
vozes confusas ou murmúrios imprecisos, que para serem percebidos,
exigem muita atenção do enfermo. Os doentes não
descobrem a falta de nitidez do fenômeno alucinatório porque,
em geral, eles sabem o que significam as suas alucinações.
A projeção da alucinação para o exterior
é completa. A impressão da realidade é um dos elementos
de maior importância nas alucinações. Têm
irresistível força de conhecimento.
O valor emocional das alucinações é variável.
Às vezes, o doente permanece indiferente diante das alucinações
mais espantosas, podendo lhe causar aborrecimento e emoção.
No início da Esquizofrenia, certos tipos de alucinações
podem levar o doente ao suicídio.
As alucinações se subdividem nos seguintes tipos:
- Elementares: quando contém apenas
os elementos de uma sensação (uma chama, ruídos...);
- Complexas: palavras, frases, pessoas.
Alucinações
Auditivas
São mais freqüentes e as mais
importantes. Apresentam-se sob a forma elementar: ruídos, zumbidos,
murmúrios, estalidos melodias, toques de campainha; e sob a forma
complexa: vozes que censuram e ameaçam.
O enfermo pode ouvir uma única voz, que repete uma palavra ou
diz frases completas, ou muitas vozes que mantém entre si uma
conversação. Podem ser quase imperceptíveis ou
sussurradas; podem ser masculinas ou femininas; a direção
de onde provém é variável pois pode vir de perto
ou de longe.
O conteúdo das alucinações auditivas expressa,
em geral, as inquietações e os temores do doente. Predominam
acusações, insultos e ameaças. Algumas vezes, o
doente ouve longas discussões em que tornam parte muitas pessoas.
Em alguns casos, o conteúdo das alucinações auditivas
pode expressar o desejo imediato do enfermo.
Em certos casos, as vozes não se dirigem diretamente ao doente,
falam entre si sobre ele.
Alucinações
Visuais
Sob forma de alucinações
verdadeiras, apresentam-se preferentemente nos estados de perturbação
da consciência. Em muitos casos de alucinações visuais,
os enfermos vêem determinados objetos, figuras ou cenas completas.
As alucinações microscópicas e as imagens instáveis,
móveis, policrômicas, são até certo ponto,
características de algumas intoxicações (cocaína
- as primeiras; ópio e álcool- as segundas). Às
vezes, as imagens são reais, com os caracteres dos seres vivos,
dotados de forma, cor e movimento. Outras vezes, as imagens são
inteiramente fantásticas.
Os enfermos podem manter-se como espectadores das alucinações
visuais ou tomar parte ativa nos acontecimentos alucinatórios.
Um tipo de alucinação visual denominada "liliputiana"
acompanha-se de um estado afetivo desagradável, contemplando
o paciente com satisfação o espetáculo que presencia.
Esse tipo de alucinação visual é observado nas
psicoses tóxicas, especialmente no curso das alterações
psíquicas provocadas pelas drogas psicodislépticas.
O conteúdo das alucinações visuais é, em
geral, desagradável e acompanha-se de um estado afetivo intensamente
angustioso.
Alucinações
Autoscópicas
É uma variedade de alucinação
visual em que o enfermo percebe o seu próprio corpo. Pode ser
externa e interna.
Na autoscopia externa o indivíduo percebe a imagem do seu próprio
corpo, o que se acompanha de sentimento angustioso de desdobramento
da personalidade. Na interna o enfermo percebe um ou vários órgãos
ou uma região corporal isolada.
As alucinações autoscópicas são observadas
no curso dos estados de obnubilação de origem infecciosa
ou nas intoxicações experimentais pelas substâncias
alucinógenas.
Alucinações
Extracampinas
São os casos em que as visões
se localizam fora do campo sensorial correspondente. O paciente vê
pessoas que estão atrás de sua cabeça. Nesse caso
faltam elementos característicos das alucinações
visuais como forma, cor e movimento.
Alucinações
Olfativas
São relativamente raras. Apresentam-se
quase sempre associadas. São observadas habitualmente na Esquizofrenia
e têm, geralmente, conteúdo desagradável. O enfermo
é perseguido por sensações repugnantes de mau odor:
carne deteriorada (cadáver), pano queimado, lixo, mofo e cheiro
pútrido de fezes.
Em alguns casos, ao doente parece que o mau odor provém dele
próprio.
Nos casos em que os pacientes se julgam influenciados pelos gases tóxicos,
trata-se de interpretações delirantes de percepções
normais.
Alucinações
Gustativas
Consistem, segundo as informações
dos enfermos, em que o alimento tem um sabor estranho, metálico,
um sabor de droga que não pode ser identificado. Os doentes sentem
um gosto desagradável na boca, que permanece durante todo o dia.
A Sitiofobia pode resultar de alucinações do paladar,
quando o enfermo "percebe" gosto de veneno na comida.
Alucinações
Táteis
São encontradas em psicoses exotóxicas.
O doente sente correr-lhe pelo corpo pequenos animais, percevejos, piolhos,
pulgas e etc. podem apresentar-se sob sensação de queimadura,
sensação de contato, especialmente nas zonas erógenas,
formigamento, cócegas, comichão e etc.
Na Esquizofrenia pode gerar o "delírio de perseguição
física".
Alucinações
Cenestésicas
Distúrbio da sensibilidade interna.
Referem-se os enfermos a dores gerais e parciais. Há sensações
de movimento interno do ventre onde acreditam ter um animal alojado,
ou percebem a sensação de choques elétricos de
espírito introduzido no corpo.
Manifestam-se, em geral, combinadas à idéias delirantes
de influência física, isto é, sensações
anormais que são impostas no exterior.
Alucinações
do Sentido do Equilíbrio (neuro-vestibulares)
Relacionam-se com o equilíbrio e
com o movimento. Os esquizofrênicos percebem sensações
de movimentos anormais, sentem-se como se estivessem suspensos no ar,
voando como se o chão afundasse ou se elevasse, experimentam
movimentos de rotação em diferentes sentidos, sentem-se
impelidos a andar ou executar determinados movimentos.
Alucinações
Psíquicas
As imagens alucinatórias não
têm um verdadeiro caráter sensorial, objetivo. Os enfermos
fazem referência a "palavras sem som", dizem, por exemplo,
que falam com indivíduos estranhos por "direta comunicação
do pensamento", por uma espécie de linguagem dos espíritos
e feita de vozes sem ruído, de palavras interiores que não
soam.
Alucinose
Estados alucinatórios agudos, encontrados
nos alcoolistas. Síndrome caracterizada por alucinações
auditivas verbais, dotadas de grande nitidez sensorial, estado de ânimo
angustioso, conservando o doente plena lucidez da consciência,
orientação e capacidade de crítica em face dos
distúrbios alucinatórios.
A distinção entre alucinose e alucinação
é a de que o enfermo reconhece, na alucinose, o fenômeno
como patológico.
Alucinose Peduncular
Caracteriza-se por um estado alucinatório
de natureza hipnagógica na qual está presente desfiles
de imagens visuais, móveis, múltiplas e coloridas. As
imagens surgem de preferência ao anoitecer, quando as percepções
perdem a nitidez desenvolvendo-se silenciosamente como um filme cinematográfico.
Os enfermos podem reconhecer o caráter irreal do fenômeno
alucinatório, mas, freqüentemente, há alteração
da consciência.
Pseudo-Alucinações
São produtos patológicos
da atividade representativa. Constituem-se de imagens dotadas de clareza
sensorial que ao contrário das alucinações verdadeiras,
são percebidas numa espécie de espaço subjetivo.
Suas imagens visuais e vozes são localizadas no interior da cabeça
ou na parte interna do corpo (distinção da alucinação
verdadeira).
Visões Fantásticas
Fenômeno psicopatológico muito
raro. São constituídas por imagens projetadas no campo
visual subjetivo. São extremamente variados, móveis, coloridos
e manifestam-se espontaneamente ou por influência da vontade.
Acompanha-se de tonalidade afetiva agradável.
Além das condições pessoais específicas
é necessário que o enfermo se coloque em posição
adequada, com os olhos cerrados e com a atenção inteiramente
passiva.
Alucinações
Secundárias
Surgem como conseqüência de
outros Transtornos. Não ocorre na Esquizofrenia.
Principais causas:
- Alcoolismo ð o álcool pode
levar a um quadro de alucinações. Ocorre numa fase crítica
de alcoolismo.
Existem dois tipos de
alucinações alcóolicas:
1. Delirium Tremens: Ocorre com mais freqüência
durante a fase de abstinência. É caracterizada por obnubilação
da consciência acompanhada de onirismo como se o paciente estivesse
sonhando acordado. São freqüentes as alucinações
visuais. Ocorre também as zoopsias.
2. Alucinose Alcóolica: Transtorno da percepção
que se instala em conseqüência do estado crítico do
paciente. O indivíduo apresenta alucinações auditivas.
Pode ocorrer num período de consciência clara e quando
já tem um tempo que o paciente parou de beber. Não há
um conteúdo específico neste caso. O paciente pode criticar
e entender o que está acontecendo com o sintoma. Geralmente essas
alucinações são reversíveis.
- Drogas ð são principalmente
alucinações visuais. Ocorre com o uso das drogas chamadas
alucinógenas (LSD, Cogumelo, Maconha em uso muito freqüente).
O paciente é capaz de relatar a vivência, isto é,
capaz de fazer um juízo crítico sobre as alucinações.
- Transtornos Orgânicos - Cerebrais
ð lesões cerebrais, alterações da função
cerebral podem também levar ao fenômeno das alucinações.
Freqüentemente ocorrem em:
Tumores Cerebrais: pode levar a qualquer tipo de alucinação,
Traumatismo Craniano (TCE), Meningite, Encefalite, Demência (normalmente
esse quadro não apresenta alucinações, mas pode
aparecer numa fase mais avançada, porém as alucinações
não devem fazer parte do diagnóstico de Demência).
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